segunda-feira, maio 04, 2009

Blog Joint: Nós e as nossas línguas

Sobre esta questão das línguas em Cabo Verde, vou tentar alinhar alguns pontos, ainda que de modo resumido, pois que tanto é imposto pelas regras do Blog Joint.
Antes de mais, creio ser uma enorme felicidade o facto de dispormos de duas línguas: o Crioulo e o Português. Trata-se de um traço fundamental da nossa riqueza enquanto Nação.
É um pouco como na música “Bilingual Girl” dos Yerba Buena: “two tongues are better than one.”
Ora bem. A questão é: a quantas andamos em relação a ambas?
No que ao Crioulo diz respeito, já levamos vários anos a, se assim posso dizer, engonhar. Isto é um facto. E é um facto que torna ainda mais meritória a acção daqueles (poucos ainda) que têm sido constantes na defesa e promoção da nossa língua materna.
Através de um post ainda recente, exprimi satisfação pela forma como o Projecto de Revisão Constitucional do GP do PAICV trata esta matéria. Na verdade, espero que a Revisão Constitucional venha a ser um ganho substancial para o Crioulo.
Que é como quem diz, para os Direitos Linguísticos da maioria dos cabo-verdianos. E este é o ângulo pelo qual gosto de perceber esta problemática. A cada dia que passa, fica mais indefensável tanta hesitação face à língua que está na essência mesma da Nação e do seu dia a dia.
(procurei referir-me a este ponto na Conferência Nacional dos Direitos Humanos, em Junho de 2003)
Enquanto o Legislador hesita e se atrasa, o Crioulo vai estando cada vez mais à frente e mais pujante. Basta ver o contributo dos nossos músicos e a forma como a juventude elegeu o Crioulo para as suas relações com as (ou através das) novas tecnologias. O que vale por referir as pontes para o futuro.
E isto é um sinal fortíssimo.
Por falar em sinais, seria bom verificar-se um decidido aumento da utilização do Crioulo no chamado discurso oficial ou formal.
Por exemplo, muito bom seria que o alto dignitário que for representar o país no debate geral da próxima sessão da Assembleia Geral da ONU proferisse a sua intervenção em Crioulo. Ainda que parcialmente. Nada impede (regimentalmente) que tal possa acontecer. Querendo, tudo o mais são acertos práticos.
Com o que não estou a perder de vista que, se bem ajuízo, o desafio crucial está ao nível da Educação.
É aqui, para lá dos feitos no plano legal, maxime constitucional, o terreno decisivo para o avanço do Crioulo.
Claro está, esse é, igualmente, o terreno incontornável para a melhoria da nossa prestação relativamente a essa outra nossa língua, o Português. Neste particular, permito-me a veleidade de ser enfático: estamos mal! Já o disse antes, aliás. Por exemplo, em 2003, na cerimónia de atribuição do nome do Dr. Manuel Duarte à principal sala de leitura da Biblioteca Nacional), exprimi-me assim: “parece que fazemos galhardia de um como que descaso na utilização da língua que temos como oficial, e isto mesmo por parte de sujeitos que, pela sua profissão ou pelo seu papel na sociedade, deveriam impor-se algum cuidado ou alguma autovigilância”.
Ou seja, a impunidade com que se vai dizendo/ escrevendo barbaridades!... Ou seja ainda, a tranquilidade com que se vai apunhalando a língua portuguesa!... Magro consolo sacudir os ombros, dizendo que acontece o mesmo noutras paragens...
E vou concluir, apontando mais um aspecto. Este: creio que, para o nosso bom desempenho enquanto comunidade, é fundamental fazermos uma aposta muito clara em relação a, pelo menos, uma língua (estrangeira). Bastaria reparar no que acontece no “mercado global” e a escolha seria logo para o Inglês. No essencial, parece que temos de poder definir metas (temporais), pensando nos mais jovens.
Que nisso das línguas nem sempre fica bem encomendar “idioma de vaca”!...


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