segunda-feira, outubro 22, 2018

A Liberdade de Imprensa é uma construção quotidiana

1.   No romance “As Boas Intenções”, de Abelaira, publicado em 1963, nos tempos da luta anti-fascista, há uma personagem, o Vasco, que propugna “um jornal para suprimir quando houver completa liberdade de imprensa”.
Ora bem. Nós ainda estamos na fase de fundar jornais. Que é como quem diz, o trabalho não está concluído, se é que algum dia o estará. A liberdade de imprensa é uma construção quotidiana. Na mesma medida em que a Democracia também o é. Não há liberdade de imprensa sem Democracia: necessitam uma da outra.

2.   Se assim é, parece-me importante que valorizemos o longo caminho já percorrido, aqui em Cabo Verde, em matéria de liberdade de imprensa. A noção de perspectiva ajuda a ser mais sensato e justo. Nada cai do céu nem nada surge do nada. Discreta que tenha sido, há sempre uma pedra colocada algures no passado. 

3.   O que temos hoje nada tem a ver com o que havia há 42 anos. Pessoalmente, tive a oportunidade de pôr os pés na redacção do jornal “Voz di Povo” ainda em 1979. Pouco depois fiquei com um vínculo estabilizado. De lá para cá, tenho seguido com atenção os avanços da nossa Imprensa. Em 1986, através de um artigo publicado, em Lisboa, no jornal África, exprimi a minha leitura crítica daquilo que era a imprensa nessa época. Defendi que, mesmo nas condições político-institucionais então vigentes, o Estado tinha de poder ser um garante da liberdade de imprensa e tinha de haver qualidade. Que era possível assegurar a liberdade através dos órgãos públicos de informação ou, como se dizia, dos “meios de informação e comunicação”, os quais, nos termos do artigo 11º da Constituição de 80, integravam o domínio da “propriedade do Estado”. Tratou-se de uma opinião ousada, se calhar romântica, reconheço. Caiu-me em cima algum processo por delito de opinião? Não! Esse tipo de dissabores vim a ter sensivelmente uma década depois. Hoje em dia qualquer um pode, na sua página nas redes sociais, julgar à distância e dizer o que lhe apetecer sobre o passado. É também a Liberdade a funcionar. Mas não disseram na hora devida. Não nos esqueçamos do seguinte: a liberdade de imprensa anda a paredes-meias com a liberdade de espírito. Flaubert é quem é, isso é indiscutível, mas Jean-Paul Sartre atacou-o fortemente por ele não ter dado a autoridade da sua voz àqueles que a não tinham. O silêncio é corrosivo.

4.   Apesar da instauração da Democracia e de todo o respaldo trazido por esse ganho inquestionável que é a Constituição de 92, os chamados anos 90 foram turbulentos no que se refere à Comunicação Social e à liberdade de imprensa. Tudo o que não era suposto acontecer, aconteceu. Prova provadade que a liberdade não se esgota nas proclamações e nem se basta com a letra das disposições constitucionais.   

5.   O arranque dos anos 2000 dá-se sob um ambiente de crispação. Da penúria de meios às dívidas, das ingerências à desconfiança. Coube-me ser o primeiro governante do sector, logo em 2001. Sei, sabemos todos, qual era o quadro nessa altura e parece-me que há uma enorme evolução de lá para cá. Ter memória é também uma questão de decência. 




6.   Julgo que uma grande nódoa da nossa Comunicação Social é a auto-censura. Mas não se caia no erro de pensar que se trata de um mal exclusivo desse sector. Não! Ele está presente nas mais diferentes esferas da nossa sociedade. Lá onde menos se espera... O que acontece é que o trabalho dos Profissionais da Comunicação Social está mais visível, é imediatamente colocado ao consumo e à avaliação dos cidadãos, merecendo ataques demolidores no que não esteja bem, nunca se ouvindo aplausos ao que seja bem feito. Há muito escrevi que se trata de um sector que sofre o drama de ser uma “fractura exposta”. Como quer que seja, parece-me que um antídoto eficaz ao auto-condicionamento é a formação, ou seja, a procura constante da actualização dos conhecimentos como garantia da solidez profissional e da liberdade de espírito. Cada um tem de ser inatacável naquilo que faz enquanto profissional. Do lado do empregador, a começar pelo Estado, é fundamental que sejam asseguradas todas as condições necessárias à normal realização da missão de informar com qualidade e isenção. A primeira condição é a liberdade; a liberdade é o perímetro vital dos Jornalistas e demais Profissionais da Comunicação Social. O Estado tem de ser cioso da enorme responsabilidade que lhe cabe que é a de ser garante contra as tentações de intervir ou condicionar – tentações suas e de outros. Os contratos de concessão têm de ter vida efectiva e têm de ser respeitados e cumpridos. É fundamental que haja gestores sintonizados com as especificidades do sector. Por seu turno, a nossa sociedade tem de crescer para a valorização dos Profissionais da Comunicação Social, compreendendo e enaltecendo o seu papel. A regulação tem de fortalecer-se.

7.   Não se perca de vista que somos uma sociedade pequena e com baixo sentido crítico. Não estou a referir-me à má-língua; refiro-me à capacidade de discernir e ajuizar com rectidão. O nosso olhar crítico é quase míope. O contexto social de excessiva vizinhança e familiaridade uns com os outros ofusca o discernimento. Um outro factor de perturbação é a forma e a intensidade como tudo é contaminado pelas valorações político-partidárias. Ou é amarelo ou é verde. Basicamente. Estamos tão cercados por este mal que não enxergamos outras cores. Não conseguimos ser razoáveis. A sensatez tornou-se um bem raro.

8.   Um outro ponto é o seguinte: não se deve viver obcecado pelos ratings. Aliás, Chega a ser caricata a forma como nos pomos nos bicos dos pés para receber a graça das avaliações de quem, lá longe noutras esquinas do mundo, faz os tais índices, os tais rankings, assim uma de espécie pauta com as notas de fim de período lectivo. Julgo mais útil que nos concentremos em melhorar o que falta melhorar, fazer o que tem de ser feito, no interesse da sociedade cabo-verdiana, antes de tudo o mais. Temos de ser os primeiros a desejar o melhor para nós mesmos. Porventura os ratingsnão valorizem aspectos que serão mais prementes para nós mesmos.

9.   Penso que, nos dias de hoje, temos dois grandes desafios à Comunicação Social e à sociedade cabo-verdiana: o desafio da qualidade e o da responsabilidade. Em que é que se traduzem tais desafios?

a)   Tanto a qualidade como a responsabilidade têm de ser entendidas como exigências do amadurecimento da cidadania e do espaço público no país. E vou por exemplos. Parece-me que urge descomprimir a Comunicação Social face ao peso da notícia política ou facto político. Do corriqueiro ou mundano da vida política. Há um peso desmesurado da politica: as transmissões em directo, as entrevistas, os debates, tudo mete políticos. Tudo é visto pelos olhos dos políticos. Pior ainda: são sempre os mesmos a tocar nas mesmas teclas. Ou seja, é preciso dar mais espaço a outros domínios que possam, aliás, dar-nos ideia da inteligência, da criatividade e da pujança que existem neste país. A política (ainda) não representa o melhor de nós. Quando estivermos de acordo sobre isto, estaremos na via da qualidade.

b)   Sinal de qualidade é também a correcta destrinça entre o que é facto e o que é opinião, quem noticia e quem opina. Da mesma forma, falta segmentação no tratamento das matérias. Nem tudo tem de chegar ao principal noticiário nacional. Às vezes parece que não há critério.

c)   De um modo geral, temos de subir a fasquia. Por exemplo, quem tem a oportunidade de publicar um artigo de opinião ou de participar num debate radiofónico ou televisivo ou online tem de ter a preocupação, a responsabilidade! de ajudar a elevar o nível do nosso espaço público. Urge evitar a armadilha dos lugares-comuns e da vulgaridade.

d)   Igualmente, penso que é preciso assegurar mais pluralismo. É perniciosa a diminuição da oferta na imprensa escrita. O facto de haver jornais a fechar por causas evitáveis desqualifica o quadro de liberdade de imprensa no país. Cada um tem de assumir as suas responsabilidades. Ao Estado não pode ser indiferente que haja jornais a fechar; tem de ajudar na construção de soluções, porventura indo mais além daquilo desde há muito já faz. Há o problema do financiamento ou da sustentação, da mesma forma que há o da boa gestão; são faces da mesma moeda.

e)   Um dado negativo que urge resolver é o anonimato. É algo que nos desqualifica. Quem está abertamente na arena do debate não pode ser cobardemente atacado. Não faz sentido. Repito: isto é um meio pequeno, de interconhecimento. E não estou a falar só das edições digitais.  É preciso pôr cobro a essa historia de notícias, reportagens na base de declarações e opiniões de especialistas sob anonimato. Especialista que não se identifica?!... Combater o anonimato é uma questão de qualidade, mas é também um problema de elevação dos níveis de responsabilidade e responsabilização na nossa sociedade.

f)     Para um país pequeno como o nosso é essencial apostar no chamado jornalismo ético. Vivemos num tempo globalizado e acelerado. Os avanços tecnológicos desactualizam-se rapidamente; pelas plataformas digitais as notícias chegam-nos às catadupas. O mundo alcança-se com um simples click. Atenção: há uma vastidão de fontes produtoras e emissoras de factos, quase-factos, não-factos. Tempo dos chamados factos alternativos. Trata-se, na verdade, de uma realidade muito mais complexa, o que torna também mais complexa a garantia da qualidade e o funcionamento da regulação. 

g)   A questão que efectivamente fica é a seguinte: nesta era da globalização, qual a margem de manobra de um pequeno país como o nosso? Eu acredito que temos condições para estar do lado da liberdade de imprensa com qualidade, com rigor e isenção. Não é forçoso que nos percamos na balbúrdia. Os profissionais da área têm de fortalecer-se quotidianamente e o “público consumidor” tem de crescer na sua capacidade de ajuizar criticamente e exigir qualidade. Tem de ser preservado o compromisso com aquilo que é essencial no Jornalismo, na Comunicação Social: a verdade.

10.Penso que estamos no bom caminho, com um sentido ascendente. Não há lugar para estragar ou regredir. O desafio é o de avançar mais, cada vez mais.




 Obs.: Este texto é o do depoimento inicial que proferi no Painel Interactivo 1: “Liberdade de Imprensa, regulação e responsabilização na era do digital e da globalização”, no âmbito do IV Diálogo EstratégicodoInstituto Pedro Pires, subordinado ao tema “Democracia e Imprensa Livre”, na cidade da Praia, aos 6 de Maio de 2017.
















domingo, outubro 21, 2018

Jaime de Figueiredo: o Pintor que escrevia magnificamente






E penso nesta hora, por igual,
Em Jaime de Figueiredo inquieto,
Inquieto navio sem mar
E todavia conhecendo
As artes de navegar.”

(Gabriel Mariano, 
“Louvação da Claridade”, 1986)



1.   Praia celebra os seus 160 anos. É importante, é justo e é gratificante que, neste contexto comemorativo, esta nossa Cidade, orgulhosa da sua História, palpitante de Cultura e aberta ao futuro, tenha querido render homenagem a este seu filho ilustre que é Jaime de Figueiredo. Uma cidade é também a sua memória. Relevante é, igualmente, o facto de tal homenagem ser assumida e testemunhada pelos Escritores de Língua Portuguesa ora reunidos no seu VIII Encontro. Na verdade, o tributo dos próprios Pares é sempre duplamente tocante. Jaime de Figueiredo é plenamente merecedor! Porventura esta vénia chega com algum atraso, mas sirva-nos de consolo o velho ensinamento: nunca é demasiado tarde para fazer o que deve ser feito. Nesta cidade ele nasceu a 25 de Novembro de 1905 e nela viveu a maior parte da sua vida. Foi durante largos anos Conservador da Biblioteca Municipal, posição que lhe conferia particulares responsabilidades na projecção da apetência pelo conhecimento, do mesmo passo que alimentava a sua aura de homem sábio. Tendo falecido em 15 de Outubro de 1974, o nome dele foi caindo em relativo esquecimento, pese embora um que outro aceno, uma que outra lembrança a espaços registados. Veja-se que, já em 1984, Manuel Lopes, Escritor cabo-verdiano, autor de obras fundamentais como “Chuva Braba” e “Flagelados do Vento Leste”, exprimia o seguinte a propósito de Jaime de Figueiredo: “Hoje preocupa-me esta pergunta: para quando a homenagem que a sua cidade, a Praia, lhe deve?”. Pessoalmente, não deixo de sublinhar que Jaime é uma figura nacional, pelo que há uma parte da “dívida” que tem de ser assumida por Cabo Verde no seu todo. Importa não perder de vista que estamos a falar de uma personalidade largamente desconhecida no seu próprio país.

2.   Num como que percurso ou crescendo para o pleno reconhecimento do lugar e do contributo de Figueiredo, urge referir o livro organizado por Manuel Brito-Semedo e editado em Dezembro de 2017 com o título de “JAIME -  Dramaturgo, Pintor e Ensaísta”. Na ocasião, o Autor concedeu-me a honra de ser o apresentador dessa obra, obra de inegável valor e graças à qual o acesso aos trabalhos de Figueiredo resulta hoje muito mais facilitado aos cidadãos em geral. Bem-haja, Brito-Semedo.  

3.    Uma das pessoas que participou nesse volume editado em Dezembro é Oswaldo Osório, quem para o efeito produziu o belíssimo texto intitulado “Testemunho – Jaime de Figueiredo – Retrato do Intelectual sobre Tela Imperfeita”. Veja-se que, com a translucidez da modéstia que lhe é inata, Oswaldo Osório declara-se “biógrafo falhado”, mas a verdade é que esse retrato por ele traçado, qual esquisso de biografia, conduz-nos, palavra a palavra, a ver Jaime de Figueiredo, a vê-lo retratado, justamente, por quem com ele conviveu e, assim, dele nos diz com conhecimento directo, com o necessário rigor e distanciamento, mas também com evidente afecto. Trata-se de um retrato incontornável.
Contando com a vossa indulgência, dele leio alguns excertos: 

- “De estatura média, tez clara, o casaco de linho pardo livre sobre os ombros, com a habitual gravata grená, como uma bandeira, ora para cima, ora para baixo do ombro esquerdo, conforme soprasse o vento, Sr. Jaime, como era conhecido e tratado no Plateau e nos subúrbios, atraía sempre os olhares quer pelo seu magnetismo pessoal, quer pela inquietude que parecia acompanhá-lo”.

- “ .... ele dizia as coisas com um despudor quase cruel, mas também gostava da frontalidade das pessoas com quem se relacionava”.

- “sempre à la page, “catalisador e difusor de cultura”, como dizia de si próprio, não admira que JF granjeasse na proporção directa da sua popularidade, admiradores e apoucadores despeitados. Certo é que estava à frente de muita gente!”

- “JF era tudo isso. Brilhante, diverso, aquilo a que se chamaria hoje um animador cultural, apesar daquele seu porte de aristocrata da cultura”.

- “O intelectual irreverente que foi JF viveu sempre igual a si mesmo: irrequieto e estonteante.”

4.   Do meu lado, devo referir que aprecio vivamente Jaime de Figueiredo. A obra dele, pois não tive a sorte de o conhecer pessoalmente. Cheguei a textos de Jaime de Figueiredo nas já longínquas tardes de leitura na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Nesse tempo, inícios de 80, estudante de Direito, eu tinha construído o hábito de descansar das sebentas lendo obras de Cabo Verde que eram, já nessa época, de acesso mais dificultado. É assim que chego às venerandas antologias de 1960 e 61 e, considerando o que aqui especialmente interessa, à “Introdução” que Jaime de Figueiredo escreveu para “Modernos Poetas Cabo-Verdianos”, obra, aliás, por ele organizada. Não se perca de vista que essa é a primeira antologia de poesia cabo-verdiana alguma vez organizada e publicada. Este mérito é de Jaime Figueiredo e dele apenas. Tal “introdução” é um texto de fôlego fundo sobre a Literatura cabo-verdiana. Com efeito, trata-se, feitas as contas, de um verdadeiro ensaio sobre a moderna literatura cabo-verdiana. Nele, Jaime de Figueiredo aborda, com serenidade e segurança, matérias que hoje porventura estarão adquiridas ou ao menos dilucidadas à luz de novos instrumentos teóricos e mais alargado suporte documental. Por exemplo, defendia ele a especificidade da nossa experiência literária face ao que se produzia no restante mundo colonial português e mesmo no espaço da chamada poesia da Negritude. Repare-se que, face a um propósito oficial de “recolha sistemática da poesia ultramarina, abarcando as várias formas da expressão regional”, Jaime de Figueiredo, espírito livre e crítico, contrapõe o seguinte: “Falha porém esse propósito no caso da poesia caboverdeana, ao qual seus valores peculiares, temática própria e expressão individualizada, abrem lugar à-parte.”  No entender dele, “a literatura cabo-verdeana em formação vem irrompendo ao cabo de um longo processo subterrâneo de consciencialização cultural.” Não se perca de vista que isto foi escrito em 1961, com as marcas de coragem intelectual e cívica que hoje são cada vez mais raras entre nós. Jaime de Figueiredo é inequívoco no enaltecer da influência modernista no surgimento da moderna literatura cabo-verdiana. Diz ele: “Essencialmente, o esforço de verdadeira criação literária em Cabo Verde veio possibilitá-lo o exemplo da experiência modernista: foi ele o agente da profunda revolução operada num pequeno núcleo mais permeável de momento àquele influxo.” 
  Um outro ponto tratado por Figueiredo é o atinente ao papel do grupo claridoso e da “Claridade”. Ele não tem dúvidas em afirmar que a “Claridade” representa a “base da moderna literatura em Cabo Verde”. Acontece que Figueiredo não faz tal afirmação sem antes chamar para si o papel de irradiador da, como ele próprio diz, “influência estética do grupo “atlanta” sintonizada com a doutrinação da “presença”, e mais tarde dinamizada por próximos contactos em S. Vicente”. Como se sabe, este entendimento foi anos mais tarde reequacionado por Arnaldo França em termos absolutamente equilibrados (1). Que fique claro: ninguém regateia a Figueiredo o seu lugar no seio do movimento claridoso. Oswaldo Osório, no retrato já hoje aqui referido, diz-nos que Jaime de Figueiredo “sempre se considerou co-fundador e claridoso como os seus pares, Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa”. Arnaldo França, por seu turno, colocara a questão do seguinte jeito: “Jaime de Figueiredo um claridoso? Sim! E um fundador do grupo e da revista.” De resto, veja-se que Baltasar Lopes, no seu memorável discurso no simpósio de 1986, refere-se a Figueiredo claramente como um seu par na empreitada claridosa. Conta-nos que, considerando as poucas possibilidades financeiras do Grupo Claridade, Jaime apelidava este de “grupo proletário” (2).
    Mas, ao recordar estas questões, estou apenas a querer sublinhar a importância dessa “Introdução” escrita por Figueiredo em 1961, pondo em evidência as suas qualidades de Ensaísta de primeira água. 

5.   Naturalmente que não é possível falar de Jaime de Figueiredo sem recordar a comovida comunicação do Dr. Arnaldo França ao “Simpósio Internacional sobre Cultura e Literatura Cabo-Verdianas” organizado por ocasião do cinquentenário da revista “Claridade” e que decorreu, no Mindelo, de 23 a 27 de Novembro de 1986. Chegado ao púlpito para proferir a sua intervenção, o Dr. França não conseguiu conter as lágrimas. Via-se nele saudade, admiração e muita amizade. A comunicação em referência intitulava-se “Jaime de Figueiredo e a Claridade”. Ao escutá-la, reforçou-se em mim a ideia de que Jaime tinha sido uma personagem singular. Uma verdadeira personagem de um bom romance. Ainda recentemente, aqui na Praia, em conversa com Arménio Vieira ele dizia-me: “Jaime era um conversador nato”. O que, aliás, equivale à opinião de Quirino Spencer Salomão, citado por França (3), quando assevera que Figueiredo “era um conversador excepcional que vibrava de entusiasmo na exposição de assunto que reputasse de interesse. Com grande talento, clarificava todas as questões que abordasse, por mais complicadas que fossem.” No mesmo sentido vai, igualmente, Manuel Lopes, quem vê em Jaime de Figueiredo “uma das inteligências mais lúcidas e excitantes que as nossas ilhas produziram” (4). Ou seja, há uma clara unanimidade nos juízos elogiosos sobre a figura de Jaime de Figueiredo.

6.   De Figueiredo enquanto Ensaísta e Crítico Literário exigentíssimo são conhecidos ainda os seguintes trabalhos: “O Ensaio de Interpretação do ‘Nocturno’ de Osvaldo Alcântara”, “António Nunes, Poeta do Quotidiano Crioulo” e “O Sentido da Morna e das Coladeiras”. Este último texto teve agora a Câmara Municipal da Praia a meritória lembrança de o reeditar em fac-simile, facto que saúdo vivamente.

7.   Na produção literária de Jaime de Figueiredo, uma menção muito especial é devida ao texto intitulado “Terra de Sôdade: Argumento de Bailado Folclórico em Quatro Quadros”. De criação retintamente literária, esse é, na verdade, o único texto conhecido, até agora. Por ele, e a partir da Brava, o Autor lança um olhar sobre a nossa Emigração e o que nela ou em torno dela existe de esperança, de amor, de desencanto, de dor, de sofrimento. Trata-se de um texto de criação dramatúrgica, meticulosamente concebido e escrito com um sentido de contenção claramente indutor da melancolia que é, porventura, a sua marca estética mais saliente. De resto, importa reparar no quanto explícita é a intertextualidade que o Autor estabelece com Eugénio Tavares. Li tal peça com gosto e fiquei a imaginá-la em cena. Um dia será, assim acredito e espero. De resto, um ponto que não posso deixar de referir é o seguinte: na experiência literária cabo-verdiana, a escrita de textos para o Teatro é pouco praticada, escassa mesmo quando comparada com outros géneros. É só ver que, desde os primórdios da Literatura nestas ilhas (século XIX) até finais dos anos 80, apenas dez Autores produziram textos dramáticos, sendo Jaime de Figueiredo um deles. Sobre este tópico há investigação de suporte por José Luís Hopffer Almada e João Branco.

8.   Prossigamos. Uma referência é agora devida a uma faceta de Jaime de Figueiredo: a de Artista Plástico. Num depoimento a um programa da rádio, em 1953, dizia João Lopes o seguinte: “Nestas alturas, o Jaime fixa o seu ‘atelier’ nos baixos de prédio da Casa Madeira e pinta febrilmente com pincel e caneta, produzindo obras que surpreendem António Pedro pelo vigor e viveza das suas cores mas, helas! faz um dia para rasgar num outro dia, na ânsia de se aperfeiçoar.
  Deste choque, do movimento, conversas, passeios e tertúlias resulta o livro Diário de António Pedro, em que Jaime interveio com as suas sugestões e com uma linda caneta-capa, desenho de uma ‘badia’ dançando batuque.
  A custo e quase que às escondidas do Jaime, o António Pedro consegue levar para Lisboa alguns quadros a óleo daquele, que, expostos em Lisboa, no primeiro Salão dos Independentes, obtiveram honrosas classificações (...).
  Os seus assuntos de desenhos caracterizam-se pelas observações vividas nos casos locais, gentes humildes, carregadeiras de ponte e carvoeiros de mãos calejadas, etc. São desenhos-esculturas, em que o volume e os músculos de gente da gleba se faz ressaltar na sua movimentação de um realismo surpreendente”.
   Por seu turno, Oswaldo Osório enaltece os “seus belos desenhos de traço firme e rítmicos publicados no Jornal da Europa em 1928”.
  Parece claro que o ponto decisivo na projecção de Figueiredo foi essa participação no Salão dos Independentes. Um dos seus desenhos expostos nesse Salão veio a ser capa da revista Presença e, logo a partir de 1929, Jaime passa a ser delegado em Cabo Verde dessa revista-referência do Modernismo em Portugal. O relacionamento evolui rapidamente, em particular através de expressiva correspondência com essa figura cimeira que era João Gaspar Simões, correspondência essa que, na leitura de Arnaldo França, “é muito significativa das relações que se estabeleceram e do apreço que o nosso conterrâneo merecia à revista e testemunha das leituras e interesses artísticos que o prendiam”(5). 
  É verdade que são posteriores a essa data os trabalhos mais elaborados, mais burilados, mas parece-me justo pleitear que Jaime era um artista intrinsecamente modernista que acaba por encontrar-se com o modernismo, em particular o modernismo português, e com isso ele ganha em maturidade artística, aperfeiçoa-se. Mas já antes, solitário no seu atelier, ele ansiava por e buscava um modo próprio, diferente de expressão. Ou seja, um modo que lhe permitisse uma relação mais ‘realista’ com o meio que o circundava. Na verdade, e como ajuíza o mesmo Arnaldo França, “foi o conhecimento e posterior estabelecimento de laços com a revista do modernismo português Presença, que despoletaram as energias latentes em Jaime (...)” (6).
   Seja-me permitido referir o seguinte: parece-me importante que se retome e seja concretizado o projecto de criação da “Galeria de Arte jAiME”, quanto mais não seja para podermos ter contacto com obras de Jaime - Artista Plástico, em especial com o quadro de 1934 que, pelos vistos, é a única pintura com localização certa... e próxima. 

9.   Se bem ajuízo, o Jaime Artista Plástico é omnipresente na sua escrita. As linhas ágeis, quase austeras, dir-se-ia que guiadas por uma urgência de fixar a riqueza da realidade que o cerca, o povoa, o inspira, o faz viver num estado de frenesim criativo, tais linhas marcam a escrita de Figueiredo. É a mesmíssima mão, urgente e grave. Espartana mesmo. Dir-se-ia tributária de uma estética do essencial. Veja-se que Jaime de Figueiredo é um Cultor da língua portuguesa. Sente-se isso em cada palavra por ele escrita. Dá gosto ler os seus textos. Ele escreve de modo decantado, cada palavra finamente colhida e cuidadosamente colocada. E, entretanto, estamos a referir-nos a alguém que nos deixou “parcas contribuições escritas”, como bem observa o Dr. Arnaldo França. A meu ver, ele escreveu pouco, é certo, mas esse pouco é sumarento e é de primeiríssima qualidade. Jaime integra, de pleno direito aquilo que, há já algum tempo, qualifiquei de linhagem. “Uma fina e selecta linhagem de Autores que, qualquer que seja o tema, escrevem sempre com um apurado sentido de elegância e de afecto pela língua, neste caso, a língua portuguesa. E isto é claramente uma riqueza quando nos referimos a uma História da Escrita em Cabo Verde” (7). Não especificamente a Literatura ou o jornalismo ou o texto científico... a Escrita! O escrever bem. Não por capricho ou vaidade, mas porque assim tem de ser. A recusa do mais-ou-menos, antes uma clara opção pelo exercício da excelência na utilização da língua portuguesa. Jaime haveria de sofrer se tivesse de conviver com o impiedoso regime de maus-tratos a que a Língua Portuguesa é submetida nos dias de hoje. 
   E termino por onde comecei: sublinhando aquilo que Gabriel Mariano louvou nos seus versos dirigidos a Jaime de Figueiredo: o espírito inquieto que, ‘conhecendo as artes de navegar´, apontou-nos os caminhos do modernismo e legou-nos o dever da inquietação.



Notas:

(1) Arnaldo França, “Jaime de Figueiredo e a Claridade”, in Actas do Simpósio Internacional sobre Cultura e Literatura Cabo-Verdianas (Mindelo, 23 a 27 de Novembro de 1986), Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2010, 75ss.

(2) Baltasar Lopes, Discurso, in Actas do Simpósio..., ob. cit. na nota 1, 23ss. Aliás, Baltasar Lopes refere o mesmo na sua entrevista a Michel Laban, Cabo Verde: Encontros com Escritores, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, s/d.

(3)   Arnaldo França, ob. cit., 78.

(4) Manuel Lopes, Entrevista in João Lopes Filho, Vozes da Cultura Cabo-Verdiana: Cabo Verde visto por Cabo-Verdianos, Ulmeiro, Lisboa, 1998, 142.

(5)   Arnaldo França, ob.cit., 76.

(6)   Arnaldo França, ob. cit., 75.

(7)   Jorge Tolentino, Tempos de inCertezas, Spleen Edições, Praia, 2016, 36.


Obs.
Este texto fixa a intervenção de homenagem a Jaime de Figueiredo que me coube fazer na sessão especial que lhe foi dedicada e que marcou o primeiro dia do ‘VIII Encontro de Escritores da Língua Portuguesa’, o qual decorreu, na cidade da Praia, de 19 a 21 de Abril de 2018. 
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